São João

Bandeirinhas, balõezinhos pendurados, carrancas como enfeites nas paredes, bombinhas estourando, fogueira acesa, festa típica de São João no sítio do “vô Bento”.
Movimento intenso. Gargalhadas a valer e a música sertaneja no mais alto volume - um desafio para os nossos ouvidos.
O calor da fogueira, o cheiro de fumaça, de pipoca, o preparo das moças e dos rapazes para a quadrilha... Tudo muito legal!
Pintam o rosto, colocam tranças, pintam os bigodes, colocam os cavanhaques...
A moçada faz a festa!
A criançada se diverte porque os pais fazem a tal de “galinha morta” que é uma dobradura de jornal em forma de almofada, presa por um palito na ponta e que, colocada sobre a fumaça em cima da fogueira sobe pegando fogo.
Os mais velhos cantam: “O balão vai subindo; Vai caindo a garoa; O céu é tão lindo; A noite é tão boa. São João, São João, acende a fogueira no meu coração.”
Como vemos, cada um na sua.
Perto da meia noite, quando os ânimos estavam mais calmos e eu fazendo pipoca entra na cozinha a caseira, muito assustada:
“- Dona Maria, a senhora precisa ver! Perto da capelinha uma velha apareceu, num sei da onde. Parece uma assombração!”
“- Ora, Zezé, assombração não existe!”.
“- Ela disse que se perdeu na estrada, veio pela trilha no meio da mata procurando o sítio do Almerindo e chegou aqui . Mas, duvido...”
Com a pipoca pronta, vou servir o pessoal e 
a primeira pessoa a quem me dirigi foi a tal velhinha. Fiquei cismada! Realmente, uma figura estranha. Bem magrinha, um pouco arcada, com um lenço na cabeça, rosto com rugas, saia até o tornozelo, meias, sapato sem salto, uma blusa branca e casaquinho cinza.
Ela veio andando no meio da mata ... no meio da mata... Pensei. Não pode ser. 
O cochicho era geral. Todos rindo, sem fazer perguntas, iam se afastando dela quando a tal senhora andava um pouco.
“ - Ah! Alguém daqui está tentando enganar a gente... Mas, quem? “
“- Liza, (chamei minha irmã) Vamos ver quem do grupo está faltando, assim saberemos quem é. Isso está parecendo uma baita enganação.”
Mas... Não faltava ninguém... Todos olhavam desconfiados para dona Giselda, como dizia chamar-se. Entrou na sala, sentou-se com naturalidade ao lado de minha mãe e ficou ali vendo TV.
As brincadeiras continuaram... Daí começou a quadrilha. E, como essa dança têm muita regra, muitos pares erravam porque o ensaio foi feito em pouco tempo... Precisava ver que engraçado! Até Dona Giselda batia palmas. 
O tempo foi passando... De repente, alguém perguntou: “- E a velhinha?”
Foi um lufa-lufa, um corre-corre... Ninguém viu... ninguém sabia de nada...Todos foram parando...
Depois, um silêncio... Alguém mexia nas brazas e só ouvíamos o estalar da lenha. Os olhares fixos na fogueira... Ninguém falava...
Os bancos foram arrastados para mais perto do fogo, que já estava no fim, e o jeito foi contar piadas, histórias fantásticas sobre aparições, etc, etc...
“- Que mentira, que lorota boa...” Alguém gritava ao ouvir um fato narrado para provocar medo. E aí era só risada!
Mais um tempo... E, não sei quem levantou apontando para o lado da capelinha dizendo:
“-Vejam! Dois vultos.” 
Levantar e correr para todos os lados foi questão de segundos.
Nisso, com os braços levantados, Jonas, (meu filho) rindo como ele só vem se aproximando e gritando: “- Pessoal, trago pra vocês a velhinha transformada em homem.”
Foi aí que contou ser um amigo da faculdade, que estudava teatro e resolveu fazer uma brincadeira.
Aproveitou que ninguém o conhecia, chegou sem ser notado, passou por trás do bambuzal, trocou de roupa na capelinha, onde tudo começou.
Rimos, demos os parabéns porque se apresentou e representou muito bem. Esses moços, velhos moços...
Afinal, um fim de fogueira tranqüilo, como sempre... Agora só no próximo ano...

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