OS
VERMELHINHOS
Férias no sítio!
Cavalos para montar, barco para passear no lago, aves como patos, galinhas, pintinhos... Também porquinhos, bezerros, além de charrete para dar umas voltas pela redondeza. Coisa sensacional para uma criança! Imagine pra onze!
Pois é ! Eu e minha irmã tivemos esse ato de coragem. Passamos oito dias com os nossos filhos e sobrinhos. Oito dias no mês de julho que ficaram na recordação...
Dias alegres, com muita atividade. O mais difícil era segurar a meninada à noite dentro de casa.
Tínhamos vários tipos de jogos para distraí-las, mas não deu muito certo.
Uma noite, combinamos o seguinte:
-Eu e a Ru, contaríamos alguns casos que aconteceram na nossa infância e as crianças votariam no que mais gostassem. O prêmio seria uma folga no dia seguinte para aquela que ganhasse. Além de não fazer nada, a ganhadora seria servida por todos, no café da manhã, no almoço e no jantar.
Assim fizemos. Narramos coisas do passado e eu ganhei com um caso que aconteceu quando eu tinha nove anos de idade. Foi a noite mais calma das férias. No dia seguinte... Foi muito engraçado... Eu ria de ver a confusão que faziam na arrumação da casa e para me servir, mas, deu tudo certo.
Quer saber qual foi o fato curioso da minha infância que mereceu um prêmio?
Pois aqui está : Quando criança, eu morava no bairro da Casa Verde, em S. Paulo. Poucos moradores, comércio fraco. Apenas duas padarias; duas vendinhas, como eram chamados os empórios daquela época; uma farmácia; o sapateiro; a quitanda... Uma igreja e uma escola para as crianças.
Todos ali trabalhavam, gente esforçada porém muito pobre, e os comerciantes reclamando que muitos não pagavam as contas no fim do mês.
- De-repente, do nada, sem saber quem teve a idéia, quem mandou, ou porquê, apareceram alguns homens com uniformes vermelhos, cada um com um instrumento na mão, andando pelas ruas. Paravam na porta de uma determinada casa e começavam a tocar músicas da época. Os instrumentos eram barulhentos mesmo!
As crianças se aglomeravam e corriam para não perderem o espetáculo. Gritavam, riam, e todos os moradores da rua saíam para ver o acontecimento. Parecia uma festa, mas não era.
Ficamos sabendo que quem estivesse devendo na venda, na padaria, na quitanda, no açougue, em qualquer lugar, receberia a visita dos vermelhinhos. A vergonha da família era tanta que corriam para acertar o que deviam.
Alguns meses apenas e todos cumpriam os seus compromissos de pagar suas contas no dia certo.
Desapareceram os vermelhinhos, mas, até hoje, quando ficamos devendo alguma coisa, lá vem a frase:
Olha!... Eu vou chamar os vermelhinhos...
Eu hein !!!